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Quando o plano A afunda no gelo, o que resta é o caráter da liderança.
Sempre tive prazer pela leitura. Quem me acompanha talvez imagine que minhas escolhas se limitem a livros sobre negócios, comportamento humano ou liderança. Não é verdade! Leio romances, aventuras, suspense e biografias com o mesmo apetite intelectual. O que acontece e, quase inevitavelmente, é que, ao fechar o livro, minha mente faz um movimento automático: busco paralelos com o mundo corporativo no qual militei por quase 40 anos.
Foi exatamente isso que ocorreu com minha última leitura: A Incrível Viagem de Shackleton, de Alfred Lansing. Um livro que não fala de empresas, cargos, metas ou indicadores e, paradoxalmente, ensina mais sobre liderança, trabalho em equipe e comportamento humano do que muitos manuais corporativos.
A história que começa com o fracasso
Em 1914, Ernest Shackleton liderava a Expedição Imperial Transantártica. O objetivo era ambicioso: atravessar a Antártida de ponta a ponta, algo jamais feito até então. O plano era claro, detalhado e, à luz da lógica da época, sólido.
Mas a realidade não pediu permissão ao planejamento.
O navio Endurance ficou preso no gelo do Mar de Weddell e, meses depois, foi literalmente esmagado. A expedição fracassou antes mesmo de começar. Nenhum objetivo estratégico foi atingido. Nenhuma meta foi cumprida.
E, ainda assim, Shackleton entrou para a história como um dos maiores líderes de todos os tempos.
Por quê?
Porque, a partir daquele momento, o objetivo mudou radicalmente: não mais conquistar a Antártida, mas salvar cada vida sob sua responsabilidade.
Liderança começa quando o plano acaba
No mundo corporativo, somos treinados a admirar líderes que executam planos brilhantes. Mas a realidade insiste em nos apresentar cenários diferentes: crises econômicas, rupturas tecnológicas, fusões inesperadas, pandemias, mudanças regulatórias, conflitos culturais.
O verdadeiro teste da liderança não está na execução do plano original, mas na capacidade de redefinir o propósito quando o contexto muda.
Shackleton fez exatamente isso. Ele não se agarrou ao ego, à vaidade ou ao “plano aprovado”. Teve clareza emocional e coragem para abandonar o objetivo inicial e assumir outro, infinitamente mais importante: a sobrevivência do grupo.
Quantos líderes corporativos você conhece que insistem em estratégias falidas apenas para não admitir que o plano não funciona mais?
Autoridade moral antes da autoridade formal
Shackleton não liderava apenas por hierarquia. Ele liderava pelo exemplo, pela presença constante e pela leitura fina do comportamento humano. Ele:
- Distribuía tarefas com justiça, considerando limitações físicas e emocionais.
- Alternava funções para evitar desânimo e conflitos.
- Estava sempre visível — nunca isolado em uma “cabine executiva”.
- Assumia riscos pessoais antes de pedir sacrifícios aos outros.
No ambiente corporativo, cargos conferem poder formal, mas não garantem liderança real. Em momentos de crise, as pessoas seguem quem transmite segurança, coerência e humanidade — não necessariamente quem tem o título mais alto no organograma.
Gestão emocional em ambientes extremos
O livro de Lansing deixa claro que o maior inimigo da expedição não foi o frio, a fome ou o gelo: foi o desgaste psicológico.
Meses de escuridão, incerteza absoluta, desconforto extremo e ausência de qualquer previsão de resgate criam um ambiente perfeito para conflitos, apatia e colapso emocional.
Shackleton compreendia isso intuitivamente. Por isso, cuidava de aspectos aparentemente “menores”:
- Mantinha rotinas.
- Incentivava jogos, histórias e pequenas celebrações.
- Intervinha rapidamente em tensões interpessoais.
- Preservava a dignidade e o senso de pertencimento do grupo.
No mundo corporativo, subestimamos o impacto do clima emocional. Falamos de performance, mas negligenciamos o fator humano. Times não quebram apenas por falta de competência técnica, quebram por exaustão emocional, falta de sentido e ausência de cuidado.
Trabalho em equipe não é harmonia é compromisso
A tripulação do Endurance não era homogênea. Havia conflitos, diferenças de temperamento, momentos de desânimo profundo e até atitudes sabotadoras.
Shackleton não buscava um time “perfeito”. Ele buscava compromisso com o coletivo.
Cada decisão reforçava uma mensagem clara:
“Ninguém será deixado para trás.”
Essa frase, nunca dita formalmente, era vivida diariamente.
No ambiente corporativo, muitas vezes confundimos trabalho em equipe com consenso permanente. A verdadeira equipe não é aquela que nunca entra em conflito, mas a que mantém o compromisso mesmo quando o desconforto aparece.
Liderança é presença, não discurso
Um dos momentos mais impressionantes da história é a travessia de Shackleton em um pequeno bote, o James Caird, enfrentando um dos mares mais violentos do planeta para buscar ajuda e salvar sua tripulação.
Ele poderia ter delegado. Poderia ter ficado. Poderia ter escolhido o conforto relativo.
Não escolheu.
Liderança, em sua forma mais pura, é isso: assumir o trecho mais arriscado da jornada quando o grupo mais precisa.
No mundo executivo, isso se traduz em estar presente nas decisões difíceis, nas conversas desconfortáveis, nos momentos de crise e não apenas nos palcos iluminados dos resultados positivos.
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O legado que importa
Ao final da história, Shackleton não atravessou a Antártida. Não alcançou o objetivo original. Não entrou para a história como um grande explorador vitorioso.
Mas salvou 100% da sua equipe.
E isso o tornou eterno.
No mundo corporativo, somos obcecados por metas, KPIs, OKRs e resultados trimestrais. Tudo isso importa. Mas, quando o gelo aperta e o navio range, a pergunta muda:
Que tipo de líder você é quando não há garantias, quando o plano falha e quando tudo o que resta são pessoas confiando em você?
Talvez seja por isso que, mesmo lendo aventuras, romances ou biografias, eu sempre acabo voltando ao mundo corporativo. Porque, no fundo, liderança não é sobre cargos, setores ou indústrias.

