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Há pessoas que não fazem as malas para viajar. Vivem com elas prontas...
Beatriz mantinha uma mala ao pé da cama.
Não havia passagem comprada, destino definido ou data marcada. Ainda assim, roupas, documentos e itens essenciais estavam sempre organizados, “por precaução”. Todas as noites, antes de dormir, ela revisava o conteúdo da mala — acrescentava algo, retirava outro item, ajustava cenários imaginários de emergência.
Essa rotina consumia tempo, energia e espaço. Não apenas no quarto, mas dentro dela.
Um dia, sua amiga Carolina observou o cansaço silencioso de Beatriz e perguntou, com delicadeza desconcertante:
“Não entendo por que você mantém uma parte de si sempre em trânsito, mesmo estando em casa.
Não seria mais tranquilo separar o tempo de estar e o tempo de partir?”
A pergunta ficou suspensa no ar.
Beatriz percebeu, então, que raramente estava inteira no presente. Uma parte significativa de sua energia estava sempre ocupada em se preparar para acontecimentos que talvez nunca chegassem.
A mala que muitos profissionais carregam sem perceber
No mundo corporativo, essa mala é menos visível — mas igualmente pesada.
Ela aparece quando:
- o executivo nunca se permite relaxar porque “algo pode acontecer”
- o profissional em transição já não está onde está, mas também ainda não chegou a lugar nenhum
- o líder vive em alerta permanente, antecipando crises, cortes, mudanças, reestruturações
A mala sempre pronta é feita de:
- “E se eu for desligado?”
- “E se essa estratégia der errado?”
- “E se eu perder relevância?”
- “E se eu não estiver preparado para a próxima mudança?”
Externamente, isso pode parecer prudência, responsabilidade, maturidade.
Internamente, muitas vezes, é hipervigilância travestida de competência.
O custo invisível de estar sempre pronto para partir
Manter uma mala permanentemente pronta tem um custo alto — embora pouco mensurado.
Custa:
- presença, porque a mente nunca repousa no agora
- clareza, porque decisões passam a ser defensivas
- energia, porque viver antecipando o futuro é exaustivo
- liderança, porque quem vive reagindo raramente cria
No limite, cria-se uma carreira em estado provisório.
Nada é definitivo. Nada é habitado por inteiro.
O paradoxo é cruel:
quanto mais alguém tenta se proteger de um futuro incerto, mais deixa de viver o único tempo que realmente controla — o presente.
Executivos em trânsito permanente
Em processos de mentoria, encontro com frequência líderes que:
- continuam entregando resultados
- mantêm uma imagem de controle
- seguem admirados por suas equipes
Mas, por dentro, vivem como Beatriz:
com uma mala sempre pronta.
Eles não descansam nas próprias conquistas.
Não desfrutam plenamente do cargo que ocupam.
Não se sentem autorizados a estar onde estão.
É como se dissessem silenciosamente:
“Não posso me instalar demais. Vai que preciso ir embora.”
Só que quem nunca se instala, nunca constrói raízes profundas — nem estratégicas, nem emocionais.
A diferença entre prontidão e prisão
Ter uma mala não é o problema.
Todos nós precisamos de algum nível de preparo.
O problema é:
- dormir com ela aberta ao lado da cama
- revisá-la todas as noites
- deixar que ela determine seu estado mental
Prontidão saudável é saber onde estão seus recursos.
Prisão mental é mantê-los ocupando sua atenção o tempo todo.
Há uma diferença enorme entre:
- estar preparado
- viver em estado permanente de partida
O desempacotamento estratégico
Em contextos terapêuticos, fala-se em “desempacotar” preocupações.
No mundo corporativo, o exercício é igualmente poderoso — e necessário.
Imagine sua própria mala mental.
O que você carrega hoje?
- Medos antigos que já não fazem sentido?
- Cenários improváveis que drenam energia?
- Pressões herdadas de experiências passadas?
- Expectativas que não são mais suas?
Algumas coisas precisam, sim, estar disponíveis.
Mas não precisam estar abertas, nem à vista, nem ocupando o centro da sua atenção.
Há itens que podem ser guardados em um “armário mental”:
- acessíveis quando necessário
- fora do campo constante de vigilância
Esse desempacotamento não é negligência.
É maturidade.
Estar antes de partir
Talvez a pergunta de Carolina seja a mais importante para líderes e profissionais hoje:
Você consegue separar o tempo de estar do tempo de partir?
Porque quem vive sempre pronto para ir:
- nunca está inteiro
- nunca se compromete profundamente
- nunca sente pertencimento real
E liderança, estratégia e carreira exigem exatamente o oposto:
presença, enraizamento e consciência.
E daí…
Todos precisamos de uma mala.
Mas poucos percebem quando ela deixa de ser recurso
e passa a ser residência.
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