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O que empobrece uma empresa nem sempre passa pela contabilidade
Poucas obras são tão antigas — e ao mesmo tempo tão atuais — quanto O Avarento, de Molière. Escrita no século XVII, a peça provoca risos ao retratar Harpagon, um homem obcecado por dinheiro, controle e posse. Mas o riso, quando olhamos com atenção, rapidamente dá lugar ao desconforto.
Porque Harpagon não ficou no teatro.
Ele mudou de figurino, ganhou um crachá e passou a frequentar salas de diretoria.
Harpagon não é apenas avarento. Ele é medroso.
A leitura superficial de O Avarento nos leva a crer que o tema central é o dinheiro. Mas Molière vai além: Harpagon não teme gastar — ele teme perder. Perder controle. Perder poder. Perder segurança. Perder aquilo que, para ele, representa identidade.
No mundo corporativo, esse medo assume outras formas:
- líderes que centralizam decisões “para garantir qualidade”
- gestores que não delegam “porque ninguém faz tão bem quanto eu”
- executivos que escondem informações “por estratégia”
- empresas que economizam em gente, cultura e desenvolvimento, mas exigem inovação e engajamento
O problema não é prudência.
É aversão à perda travestida de gestão responsável.
A avareza moderna não aparece no fluxo de caixa
Nas organizações, a avareza raramente se manifesta como apego explícito ao dinheiro. Ela aparece de forma mais sofisticada — e mais destrutiva:
- Avareza de confiança: não confiar no time, nos líderes intermediários, nas pessoas.
- Avareza de reconhecimento: elogios escassos, feedbacks frios, mérito silencioso.
- Avareza de autonomia: tudo precisa passar por um único ponto de decisão.
- Avareza de escuta: ouvir apenas para responder, não para compreender.
Esses comportamentos não quebram balanços no curto prazo.
Mas quebram culturas lentamente, como uma infiltração silenciosa.
O custo invisível da liderança avarenta
Harpagon acreditava estar protegendo sua fortuna.
Na prática, ele empobrecia suas relações.
Nas empresas acontece o mesmo:
- talentos se desengajam antes de se desligarem
- pessoas param de contribuir ideias e passam a “cumprir tabela”
- líderes promissores aprendem que errar custa caro demais
- o medo substitui a confiança como elemento regulador da cultura
O resultado é uma organização que até pode parecer eficiente, mas se torna frágil, defensiva e avessa ao risco — exatamente o oposto do que o ambiente atual exige.
Quando controlar tudo vira sinal de insegurança
Harpagon precisa controlar tudo porque não confia em ninguém.
E não confia porque acredita que, se perder algo, perde a si mesmo.
Essa lógica é comum em líderes que construíram carreiras sólidas, chegaram ao topo e, paradoxalmente, passam a agir com medo. O medo de perder o que conquistaram os leva a:
- microgerenciar
- reagir mal a questionamentos
- confundir lealdade com obediência
- tratar divergência como ameaça
A avareza, nesse caso, não é financeira.
É emocional e simbólica.
Culturas fortes nascem da abundância — não do medo
Empresas saudáveis operam a partir de uma lógica oposta à de Harpagon:
- compartilham informação
- desenvolvem pessoas
- confiam antes de controlar
- entendem que poder que não circula apodrece
Líderes maduros sabem que:
reter demais empobrece; compartilhar constrói legado.
Eles entendem que cultura não se cria por discurso, mas por decisões repetidas:
- quem pode decidir
- quem pode errar
- quem é ouvido
- quem é valorizado
Mentoria como antídoto à avareza invisível
Em processos de mentoria executiva, é comum encontrar líderes competentes, experientes e bem-intencionados que não percebem o quanto estão operando a partir do medo. A mentoria cria um espaço raro:
- onde o líder pode refletir sem precisar se defender
- onde padrões inconscientes vêm à tona
- onde controle excessivo é traduzido como insegurança legítima
Não se trata de julgar.
Trata-se de ampliar consciência.
Quando o líder percebe que não precisa segurar tudo para continuar relevante, algo muda:
- o time respira
- a confiança cresce
- a cultura se fortalece
- o próprio líder se liberta
A pergunta que Harpagon nunca se fez
Harpagon morreu rico e sozinho.
Protegeu tanto que perdeu tudo o que realmente importava.
No mundo corporativo, a pergunta que fica é simples — e incômoda:
O que sua liderança está protegendo… e o que ela está destruindo sem perceber?
Porque no fim, balanços se recompõem.
Culturas, quando quebradas, raramente voltam a ser as mesmas.
E talvez a maior ironia seja esta:
o medo de perder é exatamente o que faz tantos líderes perderem tudo aquilo que não pode ser comprado.
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