Durante alguns anos tive a oportunidade de atuar como Presidente da operação brasileira da Trane, empresa do grupo Ingersoll Rand. Naquela época, a fábrica de Araucária, no Paraná, era uma das principais operações industriais da companhia na América Latina.
O que pouca gente sabe é que as discussões sobre a competitividade daquela unidade já aconteciam muitos anos antes do fechamento definitivo, anunciado apenas em 2023.
Esse fato me trouxe uma reflexão que continua extremamente atual: por que fábricas eficientes, com bons profissionais e resultados satisfatórios acabam perdendo espaço dentro das próprias multinacionais?
A resposta é menos intuitiva do que parece.
A pergunta que define o futuro de uma fábrica
Existe uma percepção bastante difundida de que uma fábrica fecha porque está dando prejuízo. Em alguns casos isso acontece. Em muitos outros, porém, a realidade é bem diferente.
Ao longo da minha carreira em multinacionais participei de inúmeras discussões sobre investimentos industriais. Raramente a conversa começava avaliando a produtividade da planta ou a qualidade dos seus produtos.
A pergunta mais importante costumava ser outra:
Se a empresa tiver de investir mais 50 ou 100 milhões de dólares, em qual país esse dinheiro vai gerar o melhor retorno?
É nesse momento que uma fábrica brasileira deixa de competir apenas com outras fábricas do Brasil. Ela passa a disputar recursos com unidades instaladas no México, na Polônia, na República Tcheca, na Índia ou na China.
E essa disputa nem sempre é vencida pela melhor fábrica.
O caso da Trane e a lógica dos investimentos globais
A unidade de Araucária tinha profissionais qualificados, uma equipe experiente e um histórico respeitável de desempenho. Ainda assim, para manter sua competitividade ao longo do tempo seriam necessários investimentos relevantes em modernização, automação e atualização tecnológica.
O problema é que as matrizes não analisam apenas a qualidade da operação. Elas avaliam o ambiente em que essa operação está inserida.
Carga tributária, complexidade regulatória, infraestrutura, segurança jurídica, custos logísticos, disponibilidade de fornecedores e previsibilidade econômica. Tudo entra na equação.
Quando se olha o tema por esse ângulo, a pergunta deixa de ser “por que a fábrica fechou?” e passa a ser “por que a matriz decidiu investir em outro lugar?”.
São perguntas parecidas, mas levam a conclusões completamente diferentes.
A lição deixada pela Ford
O caso da Ford talvez seja ainda mais emblemático.
Quando a empresa anunciou o encerramento das operações industriais no Brasil, muitos imaginaram que aquilo seria o começo de uma retirada do mercado brasileiro.
O que aconteceu surpreendeu muita gente.
A companhia continuou vendendo veículos, mantendo sua rede de concessionários, atendendo clientes e gerando receitas. Em vários aspectos, sua operação ficou mais leve e mais rentável.
Isso deveria provocar uma reflexão incômoda.
Se uma multinacional consegue ter bons resultados comerciais sem fabricar localmente, qual é o incentivo para realizar novos investimentos industriais no país?
O lento processo de desindustrialização
Na década de 1980, a indústria representava cerca de 35% do PIB brasileiro.
Hoje, esse número gira em torno de pouco mais de 10%.
Não estamos diante de uma crise pontual nem de uma decisão isolada. Estamos diante de uma transformação estrutural que vem ocorrendo há décadas.
O fechamento de uma fábrica raramente é um evento isolado. Quase sempre é apenas o capítulo mais visível de um processo que começou muito antes, quando os investimentos pararam de chegar.
Primeiro deixam de vir as expansões. Depois os novos produtos. Mais tarde as novas linhas de produção. Por fim, a fábrica perde relevância estratégica dentro do portfólio global.
O investimento foi embora muito antes da fábrica fechar.
O novo desafio vindo da China
Existe ainda um tema que merece atenção especial.
A chegada dos fabricantes chineses está mudando profundamente o setor automotivo brasileiro. Muitos desses grupos têm tecnologia avançada, enorme capacidade produtiva e uma agressividade comercial impressionante.
O consumidor tende a ganhar com mais concorrência e melhores produtos. Nisso não há dúvida.
A questão é entender qual será o papel do Brasil nessa nova cadeia global.
Seremos um centro de engenharia, desenvolvimento e manufatura ou apenas um mercado consumidor abastecido por importações e operações de montagem em sistema CKD?
A diferença é enorme.
Quando um país concentra apenas a montagem, a maior parte do conhecimento, da inovação e do valor agregado fica do lado de fora das suas fronteiras.
Talvez estejamos diante de uma nova fase da desindustrialização. Menos visível, mais sofisticada e potencialmente mais difícil de reverter.
Uma pergunta que merece ser feita
O Brasil continua sendo um mercado extraordinário. Poucos países oferecem uma combinação parecida de população, dimensão territorial e potencial de consumo.
Por isso, empresas do mundo inteiro continuam interessadas no mercado brasileiro.
A questão que me preocupa é outra.
Elas continuam interessadas em produzir aqui?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para o futuro da economia brasileira.
Porque quando uma fábrica fecha, a notícia ocupa algumas manchetes por alguns dias.
Quando um país para de receber investimentos produtivos por décadas, as consequências são sentidas por gerações.

