Há decisões que um executivo nunca esquece.
Não porque tenham sido as maiores da carreira, nem porque envolveram milhões de reais. Elas permanecem vivas porque, naquele momento, não existia uma resposta certa. Existiam apenas consequências diferentes.
Quem nunca ocupou uma posição de liderança costuma imaginar que os grandes dilemas acontecem entre o certo e o errado. A realidade é bem diferente. À medida que crescemos na carreira, as escolhas passam a acontecer entre duas alternativas legítimas, ambas carregadas de riscos, perdas e impactos sobre pessoas.
Foi por isso que, muitos anos depois de assistir ao filme A Escolha de Sofia, percebi que aquela história havia se tornado uma metáfora para inúmeros momentos da minha vida executiva. Evidentemente, não pela dimensão da tragédia retratada no filme, mas pela essência do dilema: situações em que qualquer decisão deixa marcas.
Quando a decisão deixa de ser apenas empresarial
Passei por muitas reorganizações ao longo da carreira. Fechei operações, reduzi estruturas, substituí executivos e participei de decisões que afetaram centenas de pessoas. Em todas elas havia pressão por resultados, análises financeiras e muita racionalidade.
Algumas destas decisões continuam ocupando um espaço em minha memória e uma delas é que durante uma reorganização, precisei eliminar uma posição executiva ; precisei escolher entre dois profissionais para demitir.
De um lado, um jovem executivo extremamente promissor. Inteligente, dedicado e com enorme potencial de crescimento. Ainda lhe faltava experiência, mas sobravam capacidade de aprendizado e vontade de construir uma carreira sólida.
Do outro, um executivo experiente, respeitado tecnicamente e que entregava resultados consistentes. Conhecia profundamente o negócio e era uma referência para muitas pessoas da equipe.
A decisão parecia simples até que uma informação mudava completamente o contexto.
Esse executivo enfrentava um grave problema de alcoolismo. Em algumas ocasiões deixava a empresa durante o horário de almoço para tomar “apenas uma dose”. Eu sabia que não era apenas uma dose. Também sabia que a perda do emprego provavelmente agravaria ainda mais aquela condição.
Naquele instante, a decisão deixou de ser apenas empresarial.
Se eu mantivesse o executivo experiente, abriria mão de um talento que poderia representar o futuro da organização.
Por outro lados, se eu decidisse por escolher o jovem para permanecer na organização, carregaria comigo a culpa de que a demissão poderia acelerar o processo de destruição pessoal de alguém que já enfrentava o alcoolismo.
O peso invisível da liderança
Nenhuma planilha respondia aquela pergunta. Os indicadores financeiros também não e nenhum programa de desenvolvimento de liderança prepara alguém para situações destas.
Existe uma crença de que quanto maior o cargo, maior o poder. Hoje penso exatamente o contrário. Quanto maior a responsabilidade, mais frequentes se tornam as decisões para as quais não existe resposta perfeita.
É nesse momento que a liderança deixa de ser um exercício técnico e passa a ser profundamente humano.
Os livros ensinam como analisar cenários. Os indicadores ajudam a medir riscos. A experiência melhora nosso julgamento. Mas chega um momento em que nenhuma dessas ferramentas elimina o peso da consciência.
Quem assina a decisão também convive com ela.
A pergunta que permanece
Muitos anos se passaram desde aquele episódio.
Ainda hoje, de vez em quando, volto a pensar naquela sala, naquelas duas pessoas e na responsabilidade que repousava sobre minha mesa.
Não vou contar qual foi minha decisão.
Prefiro deixar a mesma pergunta que, naquele dia, ficou apenas comigo.

