Há algum tempo, um executivo entrou na minha sala trazendo um currículo impresso.
Sentou-se, colocou o documento sobre a mesa e foi direto ao ponto: Walter, preciso de ajuda para me recolocar.
Na cabeça dele, o caminho estava claro. Revisar o currículo, fortalecer o LinkedIn, preparar-se para as entrevistas e entender como responder às perguntas sobre a saída da empresa anterior. Era exatamente isso que esperava da mentoria.
Olhei rapidamente o currículo. Havia alguns ajustes a fazer, mas, sinceramente, eles estavam longe de ser o principal problema.
Em vez de começarmos pelo documento, fiz uma pergunta que o deixou visivelmente desconfortável: Antes de falarmos sobre o currículo, me conte: você quer voltar para o mesmo tipo de carreira que acabou de deixar?
Ele ficou alguns segundos em silêncio e respondeu algo como: Acho que nunca tinha pensado nisso. Na verdade, preciso voltar ao mercado.
Essa resposta diz muito sobre a forma como a maioria dos executivos encara a recolocação. Quando o emprego acaba, toda a atenção se concentra em encontrar outro o mais rápido possível. É compreensível. Existe pressão financeira, preocupação com a família e, muitas vezes, um sentimento de perda que afeta até a autoestima.
Nessas circunstâncias, pensar na carreira parece quase um luxo mas é justamente aí que mora o maior risco.
O executivo que queria um currículo
Ao longo das semanas seguintes, o currículo continuou sobre a mesa. Não o ignoramos. Apenas adiamos sua revisão.
Primeiro procuramos entender a trajetória que aquele executivo havia construído. Conversamos sobre as decisões que marcaram sua carreira, sobre competências que haviam sido pouco utilizadas nos últimos anos, sobre aquilo que lhe dava satisfação e sobre atividades que continuava desempenhando apenas porque o cargo exigia.
Em determinado momento, ficou evidente que ele estava tentando recuperar a posição que havia perdido, mas não porque ela ainda representasse o que desejava para o futuro. Era, em grande parte, uma tentativa de voltar ao ponto em que a carreira havia sido interrompida.
São coisas diferentes.
Quando alguém perde o emprego, é natural querer reconstruir rapidamente aquilo que desapareceu. O problema é que essa urgência costuma impedir uma pergunta muito mais importante: voltar para onde?
Quando a conversa muda de direção
Pouco a pouco, o foco da mentoria deixou de ser a recolocação e passou a ser a carreira.
O interessante é que essa mudança não aconteceu porque eu sugeri um caminho diferente. Ela aconteceu porque, ao analisar sua própria trajetória com mais distanciamento, ele começou a enxergar aspectos que a urgência escondia. Descobriu competências que estavam subutilizadas, percebeu que algumas das funções que exercia já não faziam sentido para ele e concluiu que a posição que pretendia buscar era muito mais consequência do hábito do que de uma escolha consciente.
Ao final do processo, decidiu seguir uma direção completamente diferente daquela imaginada na primeira reunião e, até hoje acredito que, se tivéssemos trabalhado apenas currículo, LinkedIn e entrevistas, ele provavelmente teria conseguido outra vaga semelhante à anterior; talvez até rapidamente.
Mas também acredito que existiria uma boa chance de, algum tempo, voltar a enfrentar os mesmos conflitos e as mesmas insatisfações que o levaram àquela transição.
A oportunidade escondida na recolocação
Sempre que um executivo me procura dizendo que precisa de ajuda para se recolocar, lembro dessa história. Evidentemente trabalharemos currículo, LinkedIn, networking e preparação para entrevistas. Essas ferramentas fazem parte do processo e podem fazer diferença na conquista de uma nova posição. O que procuro evitar é que elas se transformem no centro da discussão, porque nenhuma delas responde à pergunta mais importante: qual é a carreira que esse executivo deseja construir a partir daqui?
A recolocação é um daqueles raros momentos em que a vida profissional obriga a pessoa a interromper a rotina e olhar para a própria trajetória com algum distanciamento. Enquanto estamos absorvidos pelas metas, pelas reuniões e pelos problemas do dia a dia, dificilmente encontramos tempo para questionar se o caminho continua fazendo sentido. A perda de um emprego, por mais difícil que seja, acaba criando esse espaço de reflexão. É justamente por isso que costumo dizer aos que, antes de ser uma crise, a recolocação pode representar uma oportunidade.
Estou convencido de que os executivos que aproveitam esse período apenas para encontrar uma nova empresa resolvem um problema imediato. Já aqueles que utilizam esse momento para repensar a própria carreira costumam tomar decisões mais consistentes e construir trajetórias mais duradouras.
Recolocação não representa apenas o fim de um ciclo profissional, mas sim uma oportunidade rara de decidir, com mais consciência, como será o próximo. É por isso que, antes de abrir o currículo, prefiro abrir uma conversa sobre carreira pois é essa conversa que realmente muda o futuro de um profissiona

