𝗩𝗼𝗰ê 𝗷𝗮 𝘁𝗲𝗻𝘁𝗼𝘂 𝗹𝗶𝗱𝗲𝗿𝗮𝗿 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗻ã𝗼 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗲𝗴𝘂𝗲 𝗲𝗻𝘅𝗲𝗿𝗴𝗮𝗿 𝗼 𝗰𝗮𝗺𝗶𝗻𝗵𝗼 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗶𝗿𝗼?
No mundo corporativo, muitos executivos acreditam que precisam de clareza total antes de decidir. Mas a realidade é outra: a névoa faz parte da jornada.
Estratégia não é esperar que tudo fique visível.
É saber dar o próximo passo com consciência, mesmo em cenários incertos.
Neste artigo, uso a metáfora da Trilha na Névoa para refletir sobre liderança, tomada de decisão, carreira e o papel do coaching e do mentoring executivo quando o futuro não se apresenta com respostas prontas.
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E se o problema não fosse a falta de clareza, mas a crença de que ela é necessária para avançar?
A história da trilha
Camila estava no meio de uma trilha de montanha quando uma densa névoa desceu repentinamente. O que antes era um caminho claramente marcado tornou-se visível apenas alguns passos à frente. Seu destino (um mirante com vista panorâmica) simplesmente desapareceu no branco impenetrável.
O instinto imediato foi parar. Esperar. Talvez a névoa se dissipasse.
Mas o guia meteorológico era claro: o fenômeno poderia durar horas.
Diante disso, Camila tomou uma decisão desconfortável, porém consciente: continuar caminhando, focando apenas no trecho visível à sua frente. Não havia mapa completo. Não havia garantias. Apenas o próximo passo.
A cada metro avançado, algo curioso acontecia: ao manter atenção total no presente, ela conseguia seguir com segurança. Sem pressa. Sem improvisos inconsequentes. Apenas presença.
Horas depois, ao chegar ao mirante, a névoa começou a se dissipar lentamente. E então, pela primeira vez, Camila conseguiu enxergar não apenas a vista esperada, mas também todo o caminho que havia percorrido: um caminho que, até então, ela não conseguira ver.
A ilusão da clareza no mundo corporativo
No mundo corporativo, muitos líderes vivem exatamente essa mesma experiência — só que sem trilhas, montanhas ou mirantes.
Vivem-na em salas de conselho, reuniões estratégicas, mudanças de carreira, fusões, reestruturações, sucessões, crises silenciosas e decisões que não podem mais ser adiadas.
Executivos frequentemente me dizem, em processos de mentoring:
“Quando eu tiver mais clareza, eu decido.” “Preciso enxergar o cenário completo antes de avançar.” “Ainda faltam informações.”
Mas a verdade é desconfortável: o cenário completo raramente se revela antes da decisão.
A névoa não é exceção no mundo corporativo moderno. Ela é o terreno.
O medo que paralisa líderes experientes
Curiosamente, quanto mais alto o cargo, maior tende a ser a intolerância à incerteza.
Isso acontece porque:
- Espera-se que líderes “tenham respostas”
- A exposição ao erro aumenta
- As decisões impactam pessoas, carreiras, resultados e reputações
O medo, então, se disfarça de prudência. A espera, de cautela. A paralisia, de análise estratégica.
Mas, assim como na trilha, parar não elimina a névoa — apenas prolonga a estagnação.
Liderança não é enxergar tudo. É saber caminhar bem.
A maturidade executiva não está em prever cada curva do caminho, mas em desenvolver critérios sólidos para dar bons próximos passos, mesmo sem visibilidade total.
No coaching e no mentoring executivo, este é um ponto-chave:
Estratégia não é controle do futuro. Estratégia é qualidade de movimento no presente.
Executivos que evoluem aprendem a trocar perguntas como:
- “Onde isso vai dar?” por:
- “Qual é o próximo passo responsável que posso dar agora?”
A presença como vantagem competitiva
Na metáfora da trilha, Camila só conseguiu avançar porque estava inteiramente presente.
No mundo corporativo, o mesmo se aplica:
- Decisões apressadas costumam vir da ansiedade
- Decisões travadas, do medo
- Boas decisões, da presença e do discernimento
A presença permite:
- Avaliar riscos reais, não imaginários
- Distinguir urgência de importância
- Sair do piloto automático
- Escutar melhor — a si mesmo e aos outros
O papel do coaching e do mentoring na névoa
Muitos executivos chegam ao mentoring esperando um mapa completo da trilha.
O que encontram, na verdade, é algo muito mais valioso:
- Um espaço seguro para pensar
- Perguntas que ampliam a visão
- Critérios para decidir melhor
- Clareza suficiente para o próximo passo — não para toda a jornada
O mentor ou coach não dissipa a névoa. Ele ajuda o líder a não se perder dentro dela.
A revelação só vem depois do movimento
Um ponto fundamental da metáfora é este:
Camila só conseguiu enxergar o caminho percorrido depois de caminhar.
No mundo executivo, o mesmo acontece:
- Sentido vem depois da ação
- Aprendizado vem depois da decisão
- Confiança vem depois do movimento
Esperar clareza total antes de agir é, muitas vezes, abrir mão da própria jornada.
E daí…
Se você está vivendo um momento de incerteza na sua carreira ou liderança, talvez a pergunta não seja:
“Quando a névoa vai embora?”
Mas sim:
“Qual é o próximo passo consciente que posso dar, mesmo sem enxergar tudo?”
Porque, no fim, não são os líderes que veem mais longe que chegam mais longe. São aqueles que aprendem a caminhar com lucidez mesmo quando a trilha desaparece.
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