“TUDO O QUE NOS FOI DADO PODE SER TIRADO.”
Assisti ao filme Hamnet esta semana e essa frase ficou comigo.
O que começou como uma história sobre Shakespeare tornou-se um mergulho na minha própria história: a perda da minha filha Juliana e as transformações silenciosas que o luto provocou em mim, inclusive na forma como enxergo a vida.
Neste texto, compartilho uma reflexão pessoal sobre presença, empatia e o que realmente importa — dentro e fora do mundo corporativo.
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O cinema escureceu.
A cena era simples. Silenciosa.
E então veio a frase:
“Tudo o que nos foi dado pode ser tirado.”
Não foi apenas uma fala do roteiro. Foi um espelho.
Algumas histórias assistimos. Outras nos atravessam.
Eu havia começado o filme Hamnet como espectador. Terminei como pai.
A tela mostrava o vazio deixado por um filho. E, inevitavelmente, minha memória trouxe Juliana.
Minha filha.
Uma de meus quatro filhos. Gêmea de Luciana. Alegre. Presença luminosa. Daquelas pessoas que iluminam ambientes sem esforço.
Casada. Mãe do pequeno Lucas, que tinha apenas 11 meses quando recebemos o diagnóstico: câncer de adrenal. Raro. Agressivo.
Passei a vida profissional lidando com riscos. Antecipando cenários. Construindo estratégias.
Mas naquele momento não havia estratégia.
Havia apenas impotência.
Ela lutou por seis anos.
Não lutava apenas contra a doença. Lutava pelo tempo.
Queria que o filho tivesse memórias dela. Queria deixar presença.
E deixou.
Construiu laços. Construiu amor. Construiu história.
E depois nos deixou.
Em processos de coaching, fala-se muito em empatia.
Mas algumas dores não são traduzíveis. Não se transferem. Não cabem em teoria.
Perder uma filha é uma inversão da ordem natural da vida.
O luto foi intenso. Demorado. Silencioso.
Houve dias em que relatórios, metas e reuniões pareciam irrelevantes.
Houve momentos em que compreendi algo que nenhum cargo executivo ensina:
Nada nos pertence.
Nem as pessoas que mais amamos. Nem o tempo que imaginamos ter. Nem os dias comuns que julgamos repetíveis.
Com o tempo — porque ele é o único que sabe fazer esse trabalho — a dor muda de forma.
Deixa de ser um grito constante e torna-se uma presença permanente.
Juliana permanece.
No sorriso do Lucas.
Quando olhávamos para o céu e víamos uma estrela, ele dizia: “Ali está a mamãe olhando por nós.”
Permanece nas lembranças que revisitamos com carinho. E na transformação silenciosa que provocou em mim.
Foi ali, no silêncio após o filme, que entendi:
A frase não era sobre perda.
Era sobre consciência.
“Tudo o que nos foi dado pode ser tirado.”
Se isso é verdade — e é — então cada encontro importa.
Cada conversa importa. Cada gesto importa.
Depois da perda, minha forma de encarar a vida mudou.
Não fiquei mais fraco.
Fiquei mais atento.
Passei a adiar menos conversas importantes. Passei a reconhecer mais. Passei a escutar de verdade.
Empresas precisam de estratégia.
Mas pessoas precisam de presença.
Resultados constroem carreiras.
Relações constroem legado.
E é aqui que deixo a provocação:
Se tudo pode nos ser tirado, como você está vivendo hoje?
Você está realmente presente com quem trabalha ao seu lado? Com sua família? Com aqueles que confiam em você?
Ou está esperando “o momento certo” para dizer o que importa?
Porque, no final, o momento certo não avisa quando vai acabar.

