A insatisfação permanente é um estado de espírito marcado por uma inquietação que nunca encontra repouso.
Lembrei dessa definição na semana passada, durante uma conversa com uma executiva que está em busca de uma nova posição. Na verdade, a lembrança veio de muito longe. Há alguns anos participei de uma conferência em Buenos Aires em que o palestrante apresentou uma síndrome fictícia chamada ICA – Insatisfação Contínua Adquirida. Era uma brincadeira, mas daquelas que provocam mais reflexão do que muitas teorias sérias.
Segundo ele, a ICA atingia pessoas que jamais conseguiam desfrutar plenamente de qualquer situação. Quando conseguiam a promoção desejada, logo descobriam que o novo cargo não era exatamente aquilo que imaginavam. Quando trocavam de empresa, percebiam rapidamente que a cultura era pior do que a anterior. Quando encontravam um chefe melhor, os colegas se tornavam o problema. Havia sempre uma explicação plausível para a insatisfação e, por isso mesmo, nunca lhes ocorria a hipótese de que talvez a origem dela estivesse em outro lugar.
Na época achei a ideia divertida e confesso que não pensei mais no assunto. Hoje, conversando com executivos em processos de transição de carreira, percebo que aquela “síndrome” continua aparecendo com uma frequência muito maior do que eu imaginava.
Por que falar nisso?
Alguns profissionais chegam até mim em busca de recolocação profissional. Alguns foram desligadas, outros desejam acelerar a carreira e muitos simplesmente concluíram que chegou o momento de buscar novos desafios.
Em boa parte dessas situações, a mudança faz todo sentido. Existem empresas com culturas destrutivas, líderes inseguros que transformam o ambiente em um campo de batalha permanente e organizações incapazes de reconhecer ou desenvolver bons profissionais. Permanecer nesses contextos, muitas vezes, significa abrir mão da própria saúde física e emocional.
Mas existe um outro grupo que me chama atenção. São profissionais competentes, inteligentes e experientes que parecem repetir a mesma história em todas as empresas pelas quais passam. O discurso muda muito pouco. O chefe anterior era difícil. O atual também é. A cultura da empresa passada era ruim. A da empresa atual consegue ser pior. Os colegas nunca colaboram, as decisões da diretoria nunca fazem sentido, os processos são sempre inadequados e o reconhecimento jamais chega na medida esperada.
Depois de algum tempo, começo a perceber um padrão. A empresa muda, o cargo muda, o setor muda, mas a narrativa permanece praticamente a mesma.
É justamente nesse momento que a lembrança da palestra em Buenos Aires costuma voltar à minha cabeça.
Um bom exemplo
Na semana passada conversei com uma executiva extremamente competente que está procurando uma nova oportunidade. Conheço sua trajetória há bastante tempo e reconheço suas qualificações. Enquanto ela descrevia as razões pelas quais pretendia deixar a empresa atual, tive a sensação de estar ouvindo um roteiro conhecido. Não porque os problemas fossem irreais, mas porque eram muito parecidos com aqueles que já haviam aparecido em outras fases de sua carreira.
Curiosamente, poucos minutos antes eu havia perguntado sobre suas férias. Ela acabara de voltar de uma viagem de trinta dias pela Europa e imaginei que ouviria histórias sobre cidades, pessoas, museus ou lugares inesquecíveis. Em vez disso, ouvi uma sequência de reclamações. O voo atrasou, o calor estava insuportável, os preços eram abusivos, os franceses eram arrogantes, os portugueses mal-educados… Quando terminou de falar, percebi que ela não havia mencionado um único momento que justificasse um mês inteiro viajando.
Foi impossível não estabelecer uma relação entre as duas conversas. Pela primeira vez me ocorreu que talvez a insatisfação dela não estivesse restrita ao ambiente de trabalho. Talvez fosse uma forma de se relacionar com a própria realidade.
Isso não significa que suas críticas fossem totalmente injustas. Certamente algumas eram. Toda organização tem problemas. Toda liderança comete erros. Nenhuma empresa é perfeita. A questão é outra. Quem desenvolve o hábito de enxergar apenas aquilo que falta dificilmente conseguirá desfrutar daquilo que existe. E essa forma de olhar para o mundo acaba acompanhando a pessoa onde quer que ela vá.
E daí?
Existe uma frase atribuída aos estoicos que sempre me pareceu extremamente atual: “Não controlamos os acontecimentos; controlamos apenas a maneira como reagimos a eles.” Que resume uma ideia poderosa: grande parte da nossa paz depende menos das circunstâncias e mais da forma como escolhemos interpretá-las.
Talvez seja por isso que tantos profissionais mudem de empresa sem conseguir mudar a própria relação com o trabalho. Esperam que a próxima organização ofereça aquilo que nunca conseguiram construir internamente. Depositam na cultura, no líder ou no cargo a expectativa de eliminar uma inquietação que continuará presente, qualquer que seja o crachá.
Essa reflexão também me fez lembrar do provocativo livro de Arthur Guerra e Nizan Guanaes: “Você Aguenta Ser Feliz?”. O título parece simples, mas contém uma pergunta desconfortável. Será que estamos preparados para reconhecer aquilo que funciona bem ou nos acostumamos a procurar apenas aquilo que falta?
Naturalmente, essa reflexão não serve para justificar ambientes tóxicos nem para estimular pessoas a permanecerem em empresas onde não são respeitadas. Há situações em que pedir demissão é, sem dúvida, a decisão mais sensata.
Mas o ponto que gostaria de destacar é outro.
Talvez o primeiro passo de toda recolocação profissional não seja encontrar a empresa certa, mas descobrir se aquilo que nos incomoda realmente ficará para trás quando mudarmos de empresa.

