No último sábado fui assistir a “Autobiografia do Vermelho”, com Bianca Comparato. A peça está em cartaz no Teatro YouTube, na Avenida Paulista, no mesmo lugar onde durante muitos anos funcionou o Teatro Eva Herz.
Confesso que minha primeira reflexão aconteceu antes mesmo de entrar no teatro.
Durante anos frequentei a Livraria Cultura naquele endereço. Gostava de andar por lá sem muita pressa, olhar os lançamentos, descobrir algum livro que não estava procurando. A Cultura da Paulista era mais do que uma grande livraria. Tinha alguma coisa de templo dos livros e da cultura.
Ontem, no mesmo espaço, encontrei uma loja de departamentos. E o Teatro Eva Herz agora se chama Teatro YouTube.
Não faço aqui nenhum julgamento sobre as empresas que hoje ocupam o lugar. Os tempos mudam, os hábitos mudam, os negócios também. Mas fiquei triste. Talvez porque algumas mudanças, mesmo quando perfeitamente explicáveis, representem perdas. Sinal dos tempos…
Entrei no teatro com esse sentimento e encontrei uma peça que, curiosamente, também fala sobre olhar para aquilo que está diante de nós e tentar entender o que existia antes.
E SE O MONSTRO CONTASSE A HISTÓRIA?
“Autobiografia do Vermelho” é baseada na obra de Anne Carson e recupera Gerião, personagem da mitologia grega. Na história que chegou até nós, Hércules é o grande herói e Gerião, um monstro vermelho que acaba derrotado por ele.
Não vou contar a peça. Vale a pena assisti-la.
O que me interessa é a mudança de perspectiva proposta pela história. Estamos acostumados a conhecer os acontecimentos pela narrativa de quem venceu. Os vencedores tiveram cronistas, monumentos, livros, homenagens. Aos derrotados, muitas vezes, restou o papel que lhes foi reservado na versão de quem sobreviveu para contar.
Herói de um lado. Monstro do outro. Mas o que aconteceria se o monstro pudesse escrever sua autobiografia?
Foi uma das perguntas que levei comigo ao sair do teatro. E fiquei pensando que fazemos algo parecido todos os dias, sem perceber.
VEMOS A FOTOGRAFIA. NÃO VIMOS O FILME.
Encontramos uma pessoa aos 40, 50 ou 60 anos e acreditamos que estamos diante dela inteira. Observamos sua maneira de falar, suas reações, sua arrogância ou insegurança, sua generosidade ou dureza e, a partir daí, construímos uma opinião.
Só que estamos vendo uma fotografia. Não vimos o filme.
Por trás daquele adulto houve uma criança. E essa criança não desapareceu simplesmente porque os anos passaram. Levou consigo experiências, medos, rejeições, afetos, ausências, pequenas e grandes vitórias. Algumas coisas ficaram para trás. Outras continuam presentes de formas que nem sempre conseguimos perceber.
Freud explorou profundamente essa permanência da infância na vida adulta. Prefiro resumir isso de maneira menos acadêmica: dentro de todo adulto ainda mora um pouco da criança que ele foi.
Talvez isso explique por que tantas vezes nos enganamos sobre as pessoas.
O sujeito que hoje parece extremamente seguro pode ter passado boa parte da vida tentando vencer a insegurança. A pessoa que controla tudo talvez tenha aprendido muito cedo que perder o controle tinha consequências. Alguém que mantém distância pode simplesmente ter descoberto, em algum momento, que se aproximar demais também machuca.
Não estou dizendo que devemos encontrar uma explicação psicológica para cada mau comportamento. Muito menos que conhecer o passado de alguém o isente da responsabilidade pelo que faz no presente. Mas há uma diferença importante entre explicar e justificar.
QUEM CONHECE NOSSAS FRAQUEZAS
A peça me trouxe ainda outra inquietação.
Gerião conhece Hércules de perto. Conhece um homem que os outros enxergam apenas como poderoso. Conhece suas fraquezas e sentimentos.
Isso me fez pensar em como lidamos com as pessoas que conhecem nossas próprias fragilidades. Gostamos de ser reconhecidos por nossas forças. Exibimos nossas conquistas com facilidade. Currículos, cargos, títulos e resultados contam a parte da história que temos prazer em mostrar.
As fraquezas são diferentes. Talvez seja por isso que determinadas pessoas nos incomodem tanto. Elas conheceram uma versão nossa que preferiríamos manter escondida. Viram medo onde queríamos demonstrar coragem, insegurança onde procurávamos transmitir certeza, dúvida quando esperavam de nós uma resposta.
No mundo corporativo isso ganha uma dimensão ainda maior. Quanto mais alto alguém chega, menos espaços encontra para admitir que não sabe, que tem medo ou simplesmente que está em dúvida. O poder cria uma expectativa curiosa: esperamos que quem chegou ao topo tenha deixado suas fragilidades alguns andares abaixo.
Não deixou. Há um homem ou uma mulher atrás do cargo. E, muito antes daquele executivo existir, houve uma criança construindo sua maneira de lidar com o mundo.
ANTES DE JULGAR
Talvez por isso eu tenha saído de “Autobiografia do Vermelho” pensando menos sobre mitologia e mais sobre pessoas.
Quantas vezes classificamos alguém pela última fotografia que vimos? Quantas histórias desconhecemos antes de concluir que alguém é difícil, arrogante, fraco ou insensível?
E quantas vezes aceitamos como definitiva uma versão dos fatos simplesmente porque foi aquela que chegou primeiro até nós?
Não tenho uma resposta pronta. Talvez seja justamente por isso que algumas peças continuam conosco depois que as luzes do teatro se apagam.
Ontem, quando saí para a Avenida Paulista, a antiga Livraria Cultura continuava sendo uma loja de departamentos e o antigo Teatro Eva Herz continuava carregando outro nome.
Era a fotografia atual daquele lugar. Mas eu conhecia o filme e talvez tenha sido por isso que senti saudade.

