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O CRIME QUE A HISTÓRIA DO ROCK REVELOU CONTINUA ACONTECENDO DENTRO DAS EMPRESAS

Este não é um artigo sobre rock. É um artigo sobre como organizações distribuem crédito, reconhecimento e poder.

A história que quase foi esquecida

Durante décadas, milhões de pessoas acreditaram que Hound Dog era uma música de Elvis Presley. Na verdade, ela havia sido gravada alguns anos antes por Big Mama Thornton, uma cantora negra de voz marcante que fez sucesso no circuito de rhythm and blues, mas nunca alcançou o reconhecimento nem a prosperidade financeira proporcionados pela versão que a transformou em um fenômeno mundial.

A história se repetiu com outros artistas. Chuck Berry desenvolveu a linguagem da guitarra que moldaria o rock nas décadas seguintes. Sister Rosetta Tharpe já explorava a guitarra elétrica de uma forma revolucionária quando boa parte do mundo sequer imaginava que aquele som daria origem a um novo gênero musical. Little Richard influenciou gerações inteiras de músicos que, anos mais tarde, se tornariam ícones da cultura popular.

Não se trata de negar o talento de Elvis Presley, dos Rolling Stones ou de tantos outros artistas que escreveram seu próprio capítulo na história da música. O ponto é outro. Durante muito tempo, a narrativa oficial deu muito mais espaço aos intérpretes do que aos criadores de uma linguagem musical que nasceu nas comunidades negras americanas.

A indústria fonográfica percebeu rapidamente que podia levar aquele som para um público muito maior. Em muitos casos, bastava trocar o intérprete, adaptar alguns elementos considerados excessivamente “negros” para os padrões da época e investir na divulgação. O resultado era um enorme sucesso comercial. Quem criava a obra recebia pouco reconhecimento e uma parcela reduzida da riqueza que ela produzia. Quem chegava ao grande público tornava-se celebridade.

Esse processo passou a ser conhecido como whitewashing. Mais do que uma questão musical, ele revelou um mecanismo poderoso: nem sempre quem cria é quem recebe o crédito, a visibilidade e as maiores recompensas.

Por que falar nisso?

Seria confortável imaginar que essa história pertence a uma sociedade muito diferente da nossa e que práticas como essa desapareceram junto com a segregação racial institucionalizada dos Estados Unidos.

Não desapareceram. O que desapareceu foi a forma explícita como aconteciam.

Mecanismos sociais raramente morrem. Eles se adaptam às mudanças culturais, encontram novas justificativas e passam a operar de maneira muito mais sofisticada. O whitewashing da indústria musical não foi apenas uma injustiça histórica. Foi a demonstração de como sistemas de poder conseguem separar autoria, reconhecimento e recompensa.

É justamente por isso que essa história continua relevante. Ela nos ajuda a perceber que a distribuição desigual de crédito não acontece apenas na música. Ela pode estar presente na política, na ciência, na academia e, principalmente, dentro das empresas.

Nem sempre quem apresenta uma ideia foi quem a desenvolveu. Nem sempre quem recebe a promoção foi quem mais contribuiu. Nem sempre quem ganha visibilidade representa quem realmente construiu o resultado.

O whitewashing nos dias de hoje

Ao longo de mais de quarenta anos ocupando posições executivas, participei de centenas de reuniões sobre sucessão, promoções, avaliações de desempenho e formação de equipes de liderança. Hoje, como mentor, continuo ouvindo histórias semelhantes, agora contadas em conversas reservadas por executivos que precisam de um espaço seguro para refletir sobre suas carreiras.

Pense em um gerente de uma grande multinacional reconhecida por seus programas de diversidade.

O site institucional é impecável. As campanhas mostram mulheres em posições de liderança, profissionais negros, pessoas com deficiência e diferentes perfis representando a organização. Os relatórios ESG dedicam capítulos inteiros ao tema. Os executivos participam de eventos, assinam manifestos e produzem discursos consistentes sobre inclusão.

Quem observa a empresa de fora dificilmente encontraria motivos para questionar seu compromisso com a diversidade.

Mas esse mesmo gerente participa das reuniões que não aparecem no relatório anual.

É ali que uma profissional negra extremamente qualificada passa a ser considerada “intensa“, enquanto um colega branco, com comportamento semelhante, é descrito como “assertivo“. É ali que um executivo gay evita comentar aspectos da própria vida pessoal diante de determinados clientes porque alguém considera que isso poderia gerar desconforto. É ali que uma candidata com deficiência deixa o processo seletivo antes da etapa final porque um gestor conclui, sem maiores reflexões, que a função exige um perfil diferente, embora se trate de um cargo essencialmente administrativo.

Nenhuma dessas decisões, isoladamente, provoca indignação. Nenhuma delas se transforma em manchete.

Mas, somadas ao longo dos anos, produzem um efeito conhecido: algumas pessoas continuam encontrando muito mais obstáculos para transformar competência em oportunidade.

Não se trata de comparar essas situações à história vivida pelos pioneiros do rock. Os contextos são diferentes e as consequências também. O ponto em comum está no mecanismo. Em ambos os casos, existe uma distância entre quem contribui e quem recebe reconhecimento proporcional por essa contribuição.

A diversidade que aparece e a diversidade que decide

Nos últimos anos, as empresas evoluíram muito na construção de ambientes mais diversos. Seria injusto ignorar esse avanço. Muitas organizações fizeram mudanças profundas e genuínas, e seus resultados começam a aparecer.

Ao mesmo tempo, seria igualmente ingênuo imaginar que o problema está resolvido.

Existe uma diferença importante entre construir uma imagem de diversidade e compartilhar efetivamente poder dentro da organização.

A primeira depende de comunicação, campanhas institucionais, indicadores e relatórios bem elaborados. A segunda exige revisar critérios de promoção, sucessão, distribuição de projetos estratégicos e formação das equipes que ocupam os espaços de decisão. Em outras palavras, exige mexer justamente onde as estruturas de poder costumam ser mais resistentes.

É por isso que tantas iniciativas produzem avanços importantes na base da organização, mas encontram enorme dificuldade quando o assunto passa a ser diretoria, vice-presidência, conselho de administração ou presidência.

A fotografia da empresa muda muito antes de sua estrutura de poder.

E talvez esse seja o indicador mais honesto para avaliar o quanto uma organização realmente avançou.

A pergunta que toda empresa deveria responder

Depois de tantos anos acompanhando decisões executivas, aprendi que praticamente toda organização consegue distinguir inclusão genuína de inclusão performática. A diferença não está no discurso, mas nas escolhas que são feitas quando ninguém está olhando.

Por isso, a pergunta mais importante não é quantas pessoas diferentes aparecem na campanha institucional, no relatório de sustentabilidade ou no vídeo publicado durante uma data comemorativa.

A pergunta é bem mais simples e muito mais desconfortável.

Quem lidera os projetos mais estratégicos?

Quem apresenta os resultados ao conselho?

Quem recebe as promoções mais relevantes?

Quem ocupa os cargos onde as decisões realmente são tomadas?

Quem é lembrado quando surge uma oportunidade que pode mudar uma carreira?

Foi essa pergunta que a história do rock nos ensinou a fazer. Ela continua atual porque, em qualquer ambiente, o verdadeiro teste da inclusão não está em reconhecer o talento quando ele aparece. Está em decidir quem receberá o crédito, a confiança e o poder para escrever o próximo capítulo da história.


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