Durante muitos anos acreditei que força era suportar tudo em silêncio. A vida me mostrou que a verdadeira fortaleza não está em evitar a dor, mas em decidir quem nos tornamos depois dela.
Existem dores para as quais ninguém está preparado
Durante muito tempo ouvi frases que, certamente, você também já escutou: “Deus nunca dá um fardo maior do que podemos carregar”, “Tudo acontece por uma razão”, “O tempo cura tudo”, “Seja resiliente”. Confesso que nenhuma delas me ajudou quando mais precisei.
Talvez porque existam dores para as quais simplesmente não existe explicação. Não há aprendizado imediato, nem sentido oculto esperando para ser descoberto. Existe apenas o vazio, a ausência e a difícil tarefa de continuar vivendo.
Escrevo este artigo porque tenho conversado com muitos executivos que acreditam que força significa nunca demonstrar fragilidade. Eu também pensava assim. Demorei muito tempo para compreender que essa talvez seja uma das maiores ilusões que construímos ao longo da vida e da carreira.
Não escrevo como mentor. Escrevo como alguém que descobriu da maneira mais dura que nenhum cargo, nenhum patrimônio e nenhum sucesso profissional nos tornam imunes às adversidades da vida.
Quando descobri que continuar trabalhando não significava seguir em frente
Aos 43 anos perdi minha esposa, Iza, para um tipo de câncer extremamente agressivo. De um dia para o outro, passei a ser pai de quatro filhos tentando reorganizar uma família que havia perdido seu principal alicerce.
Naquela época eu ocupava uma posição de liderança em uma empresa inglesa. Algumas pessoas me aconselharam a tirar férias, afastar-me do trabalho e cuidar da família. Eu fiz exatamente o contrário.
Voltei imediatamente à rotina porque acreditava que precisava mostrar ao mundo que era forte. Participava de reuniões, viajava, tomava decisões e fazia tudo o que se esperava de um executivo. Por fora, parecia que havia retomado o controle da situação. Por dentro, nada estava em ordem.
Hoje consigo enxergar aquilo que, na época, eu não via. Continuar trabalhando não significava que eu havia elaborado o luto. Significava apenas que eu havia encontrado uma maneira de escondê-lo.
A conta chegou algum tempo depois. Foram oito anos de terapia. O curioso é que, durante décadas, eu havia aprendido a administrar empresas, conduzir processos de transformação, negociar aquisições e liderar milhares de pessoas. Mas jamais havia aprendido a lidar com a minha própria dor.
A terapia não apagou o sofrimento. Também não fez desaparecer a saudade. Ela me ensinou algo muito mais importante: olhar para dentro. Entender meus medos, minhas crenças e minhas limitações. Foi um processo longo, desconfortável e profundamente transformador.
As madrugadas, os livros e um encontro inesperado
Havia outro desafio silencioso: a insônia.
Passei incontáveis noites acordado. Enquanto a casa dormia, eu lia. No início, a leitura era apenas uma tentativa de fazer o tempo passar. Aos poucos, tornou-se uma companhia permanente. Foi nesse período que comecei a mergulhar na filosofia e, especialmente, no estoicismo.
Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio não me ofereceram respostas para o sofrimento. Também não prometeram felicidade. O que encontrei em seus escritos foi algo muito mais realista: a compreensão de que a vida nunca esteve sob nosso controle.
Passei anos planejando carreiras, elaborando estratégias e reduzindo riscos nas empresas pelas quais passei. No entanto, bastaram alguns meses para perceber que as decisões mais importantes da vida raramente obedecem aos nossos planejamentos.
Os estoicos repetiam uma ideia simples, mas extremamente poderosa: não escolhemos os acontecimentos, apenas a forma como reagimos a eles.
Essa frase costuma ser interpretada de maneira superficial. Algumas pessoas entendem que devemos ser frios diante da dor. Nunca foi isso que aprendi.
O estoicismo não me ensinou a não sofrer. Ensinou-me que sofrer não elimina minha responsabilidade de decidir como continuarei vivendo depois da perda.
A segunda grande prova
Anos depois, a vida voltou a me colocar diante de uma realidade que nenhum pai gostaria de enfrentar.
Minha filha Juliana iniciou uma longa e corajosa luta contra o câncer. Foram seis anos convivendo com esperança, medo, tratamentos, pequenas vitórias e enormes desafios. Em determinado momento tomei uma decisão que muitos estranharam: deixei o mundo corporativo para dedicar meu tempo à minha família.
Nunca enxerguei essa escolha como um sacrifício. Pelo contrário. Depois da morte de minha esposa, eu já sabia que existem prioridades que só percebemos quando a vida nos obriga a revê-las.
Juliana partiu. A saudade permanece comigo todos os dias e provavelmente permanecerá enquanto eu viver. A diferença é que eu já não enfrentava a dor da mesma maneira.
Na primeira grande perda, tentei derrotar o sofrimento trabalhando cada vez mais. Na segunda, compreendi que algumas dores não podem ser vencidas. Precisam ser acolhidas, respeitadas e integradas à nossa história.
E daí?
Conheci líderes brilhantes, empresários bem-sucedidos e profissionais extraordinários. Nenhum deles estava protegido das adversidades. Assim como eu não estava.
A vida não negocia com currículos. Ela não faz distinção entre CEOs, médicos, professores ou operários. Em algum momento, todos seremos confrontados por acontecimentos que jamais escolheríamos viver.
É justamente nesse momento que descobrimos quem realmente somos.
Não acredito que a adversidade nos torne pessoas melhores. Há perdas que jamais desejaríamos experimentar e seria desonesto romantizá-las. Também não acredito que exista uma recompensa escondida em todo sofrimento.
O que acredito é que a adversidade derruba nossas ilusões. A ilusão de controle, a ilusão de permanência e, principalmente, a ilusão de que força significa esconder a própria fragilidade.
Hoje continuo sentindo saudade da minha esposa e da minha filha. A filosofia não eliminou essa dor. A terapia também não. O tempo apenas me ensinou a conviver com ela sem permitir que ela definisse quem eu sou.
Talvez seja essa a maior lição que a vida me deu.
Não podemos escolher as tempestades que atravessaremos. Mas podemos escolher se elas nos tornarão pessoas mais amargas ou pessoas mais conscientes daquilo que realmente importa.
E essa escolha, ao contrário de quase tudo na vida, continua sendo exclusivamente nossa.

