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EU TAMBÉM FUI UM JOÃOZINHO DO PASSO CERTO

Existe uma história antiga sobre um recruta  chamado Joãozinho que participava de um desfile militar. Enquanto todos os soldados marchavam sincronizados, Joãozinho marchava com o passo trocado.

Sua mãe, orgulhosa, acompanhava o desfile e comentou com o marido:

“Olha só! Nosso Joãozinho é o único que está marchando certo. Todos os outros estão errados!”

A história é engraçada, mas retrata um comportamento bastante comum, especialmente no ambiente corporativo. Pessoas tão convencidas de suas opiniões que têm dificuldade em admitir que outras interpretações, pontos de vista ou caminhos possam ser mais adequados.

Uma lição que aprendi aos 35 anos e paguei um preço alto por isso

Aos 32 anos fui nomeado CFO. Era jovem, tinha uma sólida formação técnica, conhecia profundamente minha área e estava convencido de que sabia o que precisava ser feito.

Três anos depois, fui demitido.

Não foi por falta de competência técnica ou por resultados insatisfatórios. O problema estava no meu comportamento, na maneira como me relacionava com as pessoas e, principalmente, na dificuldade de aceitar opiniões diferentes das minhas.

Na época, entretanto, eu não tinha essa percepção. Estava tão convencido de que minhas posições eram corretas que não conseguia enxergar como meu comportamento afetava os relacionamentos e minha própria atuação como executivo.

Foi somente depois de perder o cargo que comecei a compreender o que havia acontecido. A demissão foi um golpe duro, mas me obrigou a fazer uma reflexão que provavelmente não teria feito se continuasse naquela posição. Aos poucos, percebi que confundia firmeza com inflexibilidade, convicção com arrogância e conhecimento técnico com capacidade de liderança.

Foi uma das lições mais importantes da minha carreira e influenciou profundamente minha maneira de exercer as posições executivas que ocupei posteriormente, inclusive como CEO. Aprendi que não basta ter razão: é preciso saber ouvir, compreender outras perspectivas, construir relacionamentos e reconhecer que nossas convicções podem estar equivocadas.

O CFO não pode ser o dono da verdade

A área financeira reúne algumas características que podem favorecer o surgimento de muitos Joãozinhos do Passo Certo.

O profissional de Finanças trabalha com números, indicadores, controles, análises e projeções. Desenvolve uma capacidade importante de identificar riscos, inconsistências e problemas que, muitas vezes, passam despercebidos por outras áreas.

Entretanto, essa formação pode produzir uma armadilha: a crença de que os números representam a única interpretação correta da realidade. O CFO pode estar absolutamente certo em seus cálculos e, ainda assim, equivocado em suas conclusões.

Uma decisão comercial, por exemplo, não pode ser analisada exclusivamente sob a ótica das margens. Uma decisão industrial não depende apenas de indicadores de produtividade. E um investimento não deve ser avaliado somente pelo retorno financeiro projetado. Existem questões estratégicas, comerciais, humanas e competitivas que precisam ser consideradas e que nem sempre estão refletidas nos números.

O CFO que não consegue ouvir seus pares, compreender suas dificuldades e aceitar perspectivas diferentes corre o risco de se transformar em um profissional tecnicamente respeitado, mas com pouca influência nas decisões da organização e há ainda outro problema: quanto mais alto o cargo, menor tende a ser o número de pessoas dispostas a confrontar suas opiniões.

Por isso, considero importante que CFOs, assim como Controllers, profissionais de FP&A e Tesouraria que aspiram a essa posição, tenham oportunidades de discutir suas dúvidas e decisões com pessoas experientes, capazes de oferecer interpretações diferentes, sem os condicionamentos das relações hierárquicas.

O CEO e a solidão das decisões

Quando passei a ocupar a posição de CEO, percebi que essa necessidade se tornava ainda maior. O CEO é constantemente procurado por pessoas que desejam apresentar problemas, defender projetos, solicitar recursos ou obter decisões. Entretanto, nem sempre encontra alguém com quem possa discutir abertamente suas próprias dúvidas.

Seus subordinados, por melhores que sejam, fazem parte da estrutura que ele lidera. Têm responsabilidades, interesses, expectativas e, naturalmente, suas próprias interpretações dos acontecimentos.

O Conselho de Administração, quando existe, desempenha um papel fundamental, mas também possui uma relação formal de supervisão e cobrança de resultados.

E o empresário, especialmente aquele que construiu seu próprio negócio, muitas vezes enfrenta uma situação ainda mais delicada. Acostumado a decidir, pode acabar cercado de pessoas que concordam com suas opiniões, seja por respeito, conveniência ou receio de contrariá-lo. Nessas circunstâncias, é muito fácil tornar-se um Joãozinho do Passo Certo sem perceber.

Não vejo problema em ter convicções. Um líder precisa delas para decidir, assumir riscos e enfrentar situações difíceis. O problema surge quando a convicção elimina a disposição de ouvir, quando a discordância passa a ser interpretada como oposição e quando deixamos de considerar opiniões que contrariam as nossas.

Com quem você conversa quando precisa ouvir algo que talvez não queira?

Considero fundamental que executivos e empresários tenham interlocutores fora de seu ambiente profissional imediato. Pessoas que não dependam de suas decisões, não disputem posições na organização e não tenham interesse em agradá-los. Interlocutores que possam questionar premissas, apresentar experiências diferentes, identificar aspectos que não foram considerados e, principalmente, dizer aquilo que ninguém dentro da empresa se sente à vontade para dizer.

Essas conversas não substituem a responsabilidade individual pela decisão. Ao contrário, ajudam a exercê-la com maior discernimento. Um contraponto bem fundamentado não precisa resultar em mudança de opinião. Pode, inclusive, fortalecer a convicção original, desde que ela tenha sido submetida a uma análise mais ampla.

E ouvir opiniões diferentes não significa concordar com todas elas. Significa reconhecer que nenhuma pessoa, por mais experiente ou competente que seja, possui todas as respostas.

Hoje, olhando para minha experiência aos 35 anos, fico pensando no quanto teria sido importante contar com interlocutores independentes, capazes de questionar minhas atitudes e me ajudar a enxergar aquilo que eu próprio não conseguia perceber.

Não sei se isso teria evitado minha demissão, mas certamente teria contribuído para que eu reconhecesse mais cedo algumas limitações que só compreendi depois de perder o cargo.

O valor de conversar com quem já esteve na mesma cadeira

Essa experiência, somada aos anos em que atuei como CFO e CEO, contribuiu para que eu passasse a valorizar cada vez mais os ambientes de discussão entre executivos.

O INXCL Group reúne CEOs e empresários que encontram, em um ambiente de confiança e confidencialidade, a oportunidade de compartilhar experiências, discutir desafios e ouvir opiniões de profissionais que também convivem com as responsabilidades de liderar organizações.

Não se trata de encontrar alguém que diga o que deve ser feito, mas de ampliar a capacidade de avaliar alternativas e tomar decisões.

A experiência de outro empresário diante de um problema semelhante pode revelar possibilidades que não haviam sido consideradas. Uma pergunta bem formulada pode provocar uma reflexão importante, assim como uma discordância sincera pode ajudar a evitar uma decisão equivocada.

O mesmo princípio orienta os encontros que tenho promovido com profissionais de Finanças, nos quais discutimos questões que vão além dos conhecimentos técnicos e que são fundamentais para quem deseja assumir maiores responsabilidades.

Em ambos os casos, o objetivo é proporcionar um ambiente em que seja possível discutir abertamente questões que, muitas vezes, não encontram espaço adequado dentro das próprias organizações.

Uma lição que permanece

Muitos anos se passaram desde aquela demissão aos 35 anos.

Não tenho dúvidas de que ela contribuiu decisivamente para meu desenvolvimento profissional. Aprendi que competência técnica abre portas, mas não garante que permaneceremos nelas. E que a capacidade de ouvir, reconhecer erros e rever posições é indispensável para quem pretende liderar pessoas e organizações.

Continuo tendo convicções e defendendo aquilo em que acredito. A diferença é que aprendi a dar mais atenção às opiniões que contrariam as minhas.

Afinal, quando todos parecem estar marchando no passo errado, vale a pena considerar uma possibilidade bastante simples: talvez o Joãozinho sejamos nós.

Conecte-se comigo:

linktr.ee/walterserer

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