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POR QUE EXECUTIVOS EXPERIENTES IGNORAM A PRÓPRIA INTUIÇÃO? (0528)

“A intuição é a inteligência da alma.”  (Arthur Schopenhauer)

Intuição executiva não é instinto cego. É uma competência de liderança que separa líderes consistentes de líderes impulsivos.

Rodrigo tinha 47 anos, 22 deles como executivo. Chegou ao nosso primeiro encontro de mentoria com uma história que já ouvi muitas vezes com nomes e empresas diferentes: havia aceito uma posição de CEO numa empresa com uma proposta irrecusável, e sabia, desde o primeiro mês, que tinha cometido um erro grave.

“Sabia como?”, perguntei.

“Sabia. Simplesmente sabia. Mas ignorei esse sinal. Tinha 14 pessoas na minha equipe me dizendo para aceitar, os números no papel pareciam perfeitos, e eu achei que estava sendo irracional.”

Ele ficou 18 meses nessa empresa. Os últimos 12 foram os mais desgastantes de toda a sua carreira.

A metáfora que eu deveria ter usado com ele

Existe um conceito que uso com frequência nos processos de coaching executivo e mentoria com CEOs e empresários: o do Escudo da Intuição. Não é um conceito meu, é uma metáfora antiga, mas que descreve com precisão algo que observo repetidamente em líderes de alta performance.

O escudo não bloqueia tudo. Ele reduz o dano do que realmente importa.

Diferente do que muitos acreditam, intuição executiva não é o oposto do raciocínio analítico. É a síntese dele. É o que acontece quando anos de experiência, padrões reconhecidos inconscientemente e informações processadas de forma acelerada produzem um sinal claro, antes que a mente consciente consiga articular o porquê.

Daniel Kahneman, no clássico Rápido e Devagar, descreve como o sistema de pensamento intuitivo é altamente confiável quando treinado em ambientes ricos em feedback. E poucos ambientes oferecem feedback mais rico, mais imediato e mais consequente do que uma posição de liderança executiva.

Por que executivos experientes ignoram o próprio escudo

Se a intuição de Rodrigo estava correta desde o primeiro mês, por que ele não agiu? Esta é a pergunta que está no centro do desenvolvimento de lideranças de alto impacto.

A resposta, na maioria das vezes, não é falta de autoconhecimento. É pressão social e medo de parecer irracional. Num ambiente de tomada de decisão estratégica, admitir que ‘sinto que isso está errado’ parece fraqueza. O líder aprende, ao longo dos anos, que precisa justificar suas decisões com dados, planilhas e apresentações. O que não cabe numa planilha tende a ser descartado.

O problema é que as decisões mais importantes de uma carreira executiva raramente cabem numa planilha.

Transições de carreira, escolha de sócios, mudanças de cultura organizacional, composição de times de alta performance, decisões sob pressão extrema: todos esses momentos exigem muito mais do que análise técnica. Exigem o que chamo de inteligência situacional integrada, que combina dado, experiência e sinal intuitivo num processo decisório robusto.

O escudo permanece permeável ao necessário

Aqui está a parte da metáfora que mais importa para quem está num processo de desenvolvimento executivo: o escudo não protege de tudo.

Ele protege do que prejudica. Mas permanece translúcido diante do que precisa ser vivido.

Rodrigo precisava daqueles 18 meses. Não porque foram produtivos em termos de carreira. Mas porque foi ali que ele aprendeu, de forma visceral, o preço de ignorar seu próprio julgamento. Essa lição não caberia num livro, nem numa conversa de mentoria. Ela precisava ser vivida.

Isso é o que separa o desenvolvimento humano genuíno do simples acúmulo de informação. Crescimento real passa pelo desconforto. E o escudo, quando funciona bem, não evita o desconforto necessário. Ele evita o dano desnecessário.

Como desenvolver essa competência na prática

No trabalho que realizo com executivos C-level, CEOs e empresários, tanto em processos individuais de mentoria quanto nos grupos da INXCL, uma das primeiras conversas que tenho é sobre o relacionamento do líder com sua própria percepção.

Não para transformar intuição em dogma. Mas para que ela ganhe o mesmo peso que os dados objetivos no processo decisório.

Algumas perguntas que utilizo para desenvolver essa competência:

Quando você teve a primeira percepção negativa sobre essa decisão? O que aconteceu naquele momento que fez você descartá-la?

Quais decisões você tomou nos últimos dois anos que, em retrospecto, ignoraram sinais que você já tinha antes de decidir?

Existe diferença entre o que você diz publicamente sobre essa situação e o que você sente quando está sozinho?

Essas perguntas não produzem respostas imediatas. Produzem reflexão. E é nesse espaço de reflexão que o Escudo da Intuição começa a ser calibrado.

O que a liderança de alta performance tem a ver com isso

Há uma diferença clara entre executivos que tomam boas decisões de forma consistente e aqueles que alternam grandes acertos com erros graves. Os primeiros, via de regra, desenvolveram uma relação saudável com o próprio julgamento. Não são arrogantes. Não ignoram dados. Mas também não anestesiam a própria percepção em nome do consenso.

Cultura organizacional saudável, times de alta performance e estratégia de carreira sustentável compartilham um elemento em comum: líderes que sabem distinguir o sinal do ruído, que têm coragem de agir no que percebem, e que desenvolveram autoconhecimento executivo o suficiente para reconhecer quando estão racionalizando em vez de raciocinar.

Esse tipo de julgamento se desenvolve na prática, principalmente quando executivo tem espaço para refletir sem filtros

E daí…

Rodrigo me disse, no último encontro que tivemos, que uma das coisas mais valiosas do nosso processo foi ter um espaço onde ele poderia dizer o que realmente pensava, sem o filtro social que um CEO costuma carregar.

“Aqui eu posso admitir que eu sabia”, ele disse. “E aí a gente consegue trabalhar de verdade.”

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